Você saiu do pronto-socorro depois de um acidente no trabalho e o atestado traz “CID T14” — às vezes T14.1, T14.8 ou T14.9 — com três, cinco ou quinze dias de afastamento. Duas dúvidas surgem na hora: o que esse código significa e quantos dias ele “dá”. Este guia responde às duas (a segunda tem uma resposta que costuma surpreender), mostra a tabela dos subcódigos, explica quem paga cada dia de afastamento, o que o INSS exige do atestado e por que, num acidente de trabalho, vale pedir ao médico um código mais específico — para a CAT, para o benefício acidentário e para uma eventual ação.
O que significa CID T14
A CID-10 — Classificação Internacional de Doenças, adotada no Brasil nos atestados, no eSocial e no INSS — organiza as lesões traumáticas no capítulo XIX (códigos S e T). Os códigos “S” identificam a região do corpo: S62 é fratura da mão, S93 é entorse do tornozelo, S06 é traumatismo craniano. O bloco T08 a T14 reúne os “traumatismos de localização não especificada do tronco, membro ou outra região do corpo”, e o T14 é o mais genérico deles: “traumatismo de região não especificada do corpo”. Na prática, o médico usou T14 quando registrou o tipo de lesão, mas não a parte do corpo — o que é comum em atendimentos rápidos de pronto-socorro.
O quarto dígito diz o tipo de lesão. A tabela oficial (DATASUS, CID-10 versão 2008) é esta:
| Código | Descrição oficial | O que costuma ser |
|---|---|---|
| T14.0 | Traumatismo superficial de região não especificada do corpo | abrasão, contusão, equimose, hematoma, picada de inseto |
| T14.1 | Ferimento de região não especificada do corpo | corte, laceração, ferimento aberto, mordedura de animal |
| T14.2 | Fratura de região não especificada do corpo | fratura fechada ou aberta, sem indicar o osso |
| T14.3 | Luxação, entorse e distensão de região não especificada do corpo | torção, ruptura de ligamento, subluxação |
| T14.4 | Traumatismo de nervo(s) de região não especificada do corpo | lesão de nervo, paralisia passageira |
| T14.5 | Traumatismo de vaso(s) sanguíneo(s) de região não especificada do corpo | hematoma arterial, laceração de vaso |
| T14.6 | Traumatismo de músculos e tendões de região não especificada do corpo | ruptura ou corte de tendão ou músculo |
| T14.7 | Traumatismo por esmagamento e amputação traumática de regiões não especificadas | esmagamento, amputação sem indicar a região |
| T14.8 | Outros traumatismos de região não especificada do corpo | lesões não classificadas nos códigos anteriores |
| T14.9 | Traumatismo não especificado | o registro mais genérico de todos |

Quantos dias de atestado o CID T14 dá?
A resposta direta: nenhum código de CID define dias de atestado. Não existe tabela legal que diga “T14 = 3 dias” ou “T14.2 = 30 dias”. A quantidade de dias é uma decisão clínica do médico, que deve constar do atestado como “a quantidade de dias concedidos de dispensa da atividade necessários para a recuperação do(a) paciente” (Resolução CFM nº 2.381/2024, art. 4º, I). Um T14.0 por contusão leve pode render um dia; um T14.2 por fratura, semanas; um T14.7 por esmagamento, meses. As páginas que prometem “quantos dias por CID” estão, no melhor dos casos, reproduzindo médias que a perícia do INSS usa internamente como referência — a Portaria Conjunta MPS/INSS nº 13/2026 prevê que a Perícia Médica Federal divulgue “os tempos médios de afastamento habitualmente reconhecidos pela perícia médica, de acordo com a CID” (art. 4º, § 4º), mas o perito “poderá estabelecer a data de início de repouso e o período de duração do benefício de forma diversa do indicado na documentação” (art. 4º, § 3º).
O que a lei define é quem paga cada dia. Nos 15 primeiros dias consecutivos de afastamento, a empresa paga o salário integral (Lei 8.213/91, art. 60, § 3º; Decreto 3.048/99, art. 75); o serviço médico da empresa, quando existe, é quem abona esses dias (Súmula 282 do TST). A partir do 16º dia, o benefício é do INSS — o auxílio por incapacidade temporária, que no acidente de trabalho é a espécie 91 (B91), sem carência (art. 26, II, da Lei 8.213/91). Se o trabalhador volta e se afasta de novo pelo mesmo motivo em até 60 dias, os períodos se somam (Decreto 3.048/99, art. 75, §§ 3º a 5º).
| Dias de afastamento | Quem paga | O que é preciso |
|---|---|---|
| 1º ao 15º dia | Empresa (salário integral) | Atestado com os dias; serviço médico da empresa abona |
| 16º dia em diante | INSS — auxílio por incapacidade temporária (B31 comum ou B91 acidentário) | Requerimento no Meu INSS; atestado com CID ou descrição, data, dias e assinatura do médico |
| Novo afastamento pelo mesmo motivo em até 60 dias | INSS, desde o novo afastamento | Atestados com o mesmo diagnóstico; os períodos se somam |
O T14 no Atestmed e na perícia do INSS
Desde 2023 o INSS concede o auxílio por incapacidade temporária por análise documental (Atestmed), sem perícia presencial, pelo Meu INSS. O atestado precisa trazer, no mínimo, identificação do requerente, data de emissão, “diagnóstico por extenso ou código da Classificação Internacional de Doenças (CID)”, assinatura e identificação do profissional com registro no conselho (Portaria Conjunta MPS/INSS nº 13/2026, art. 2º). O T14 é aceito como diagnóstico. O que ele não faz é ajudar: um código genérico dá ao perito pouca informação sobre a gravidade e o tempo de recuperação, e a Portaria permite ao perito fixar prazo diferente do pedido.
Dois limites importam. O primeiro é de duração: a Lei 15.265/2025 fixou em 30 dias o teto do benefício concedido por análise documental (art. 60, § 11-F, da Lei 8.213/91), com possibilidade de ampliação por ato do Executivo — em 2026 o próprio INSS informava, em sua página, prazos maiores pelo “novo Atestmed”; confira o limite vigente no momento do pedido, porque, ultrapassado, o caminho é a perícia presencial ou por telemedicina. O segundo é específico do acidente de trabalho: a concessão do B91 por análise documental “estará condicionada ao reconhecimento do nexo técnico previdenciário pela Perícia Médica Federal” (art. 1º, § 4º). Na prática, com atestado T14 e sem CAT, o benefício tende a sair como B31 (comum) — e a conversão para B91 vira uma segunda etapa. Sobre o que muda entre os dois, veja código 91 do INSS e auxílio-doença acidentário (B91).
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Por que pedir um CID mais específico no acidente de trabalho
O CID entra no atestado apenas com autorização do paciente: a Resolução CFM nº 2.381/2024 diz que “os médicos somente podem fornecer atestados com o diagnóstico codificado ou não quando por justa causa, em exercício de dever legal ou por solicitação do próprio paciente” (art. 5º, § 3º), e a concordância “deverá estar expressa no atestado” (§ 4º). Em caso de acidente de trabalho, o conselho é autorizar — e pedir mais do que o T14.
Três razões. Primeira, a CAT: o eSocial exige o código da CID na comunicação do acidente, “por se tratar de evento de notificação compulsória”, e a CAT com T14 e a parte do corpo em branco enfraquece a descrição do acidente. Segunda, o nexo: o INSS reconhece a natureza acidentária pela ligação entre a atividade da empresa e a doença codificada na CID (Lei 8.213/91, art. 21-A; Decreto 3.048/99, art. 337) — um código “sem região” não conversa com a atividade. Terceira, a prova judicial: numa ação de estabilidade ou indenização, o perito e o juiz comparam o atestado, a CAT e o laudo; “T14.9” e “fratura do 2º metacarpo direito (S62.3)” contam histórias muito diferentes sobre a mesma mão. Se o pronto-socorro registrou T14, o ortopedista ou o médico do trabalho que dá seguimento pode emitir novo atestado ou relatório com o código específico e a descrição por extenso — e é esse documento que deve acompanhar a CAT e o requerimento ao INSS.
O que fazer com um atestado T14 depois de um acidente no trabalho
Guarde o atestado original e peça relatório com a descrição da lesão e a parte do corpo. Confirme se a empresa emitiu a CAT até o dia útil seguinte; se não emitiu, você mesmo pode registrá-la pelo Meu INSS — o passo a passo está em quem emite a CAT e como abrir pelo Meu INSS. Se o afastamento passar de 15 dias, requeira o benefício ao INSS como acidentário e anexe a CAT. Se voltar ao trabalho e piorar, novo atestado com o mesmo diagnóstico dentro de 60 dias soma o período. E, se houver sequela, culpa da empresa ou dispensa após o afastamento, os direitos vão além do benefício: estabilidade, indenização e auxílio-acidente.
Sobre a CID-11: a nova classificação da OMS ainda não é usada no Brasil em atestados, eSocial ou INSS. Segundo o Conselho Federal de Medicina, com base em nota técnica do Ministério da Saúde, a disponibilização nos sistemas está prevista a partir de 2027, com transição gradual. Até lá, o T14 e seus subcódigos permanecem em vigor.
Perguntas frequentes
O que significa CID T14?
Na CID-10, T14 é “traumatismo de região não especificada do corpo”: o médico registrou que houve uma lesão traumática (corte, contusão, fratura, entorse etc.), mas sem indicar a parte do corpo. Os subcódigos vão de T14.0 (traumatismo superficial) a T14.9 (traumatismo não especificado).
CID T14 dá quantos dias de atestado?
Nenhum CID define dias. A quantidade de dias de afastamento é decisão do médico, conforme a recuperação necessária (Resolução CFM 2.381/2024, art. 4º, I). Um T14.0 pode render um dia; um T14.2 (fratura) pode render semanas. Até 15 dias, a empresa paga o salário; do 16º em diante, o INSS.
O que é T14.9? E T14.8 e T14.1?
T14.9 é “traumatismo não especificado”, o código mais genérico do bloco. T14.8 é “outros traumatismos de região não especificada”. T14.1 é “ferimento de região não especificada do corpo”, como corte, laceração ou mordedura. T14.0 é o traumatismo superficial (contusão, hematoma) e T14.2 a fratura sem indicar o osso.
O INSS aceita atestado com CID T14?
Aceita como diagnóstico — o Atestmed exige “diagnóstico por extenso ou código da CID” (Portaria Conjunta MPS/INSS 13/2026, art. 2º). O problema é outro: um código genérico dificulta a análise da incapacidade e do nexo com o trabalho. Quanto mais específico o código e a descrição da lesão, mais fácil obter o benefício e, se for o caso, o B91.
Posso pedir ao médico para colocar o CID no atestado?
Sim. Pela Resolução CFM 2.381/2024 (art. 5º, §§ 3º e 4º), o diagnóstico só entra no atestado com autorização do paciente, que deve constar do próprio documento. Para acidente de trabalho, vale autorizar e pedir um código que descreva a região atingida, além do T14.
O CID T14 muda com a CID-11?
O Brasil ainda usa a CID-10 nos atestados, no eSocial e no INSS; a implantação da CID-11 está prevista pelo Ministério da Saúde para a partir de 2027, de forma gradual. Até lá, o T14 e seus subcódigos continuam valendo.
Conclusão
CID T14 significa que houve um traumatismo, sem dizer onde. Ele não “dá” dias de atestado — quem decide isso é o médico — e não impede o benefício, mas atrapalha tudo o que depende de precisão: a CAT, o reconhecimento do nexo com o trabalho e a prova em juízo. A providência mais valiosa, nas primeiras 48 horas depois do acidente, é transformar o T14 em um diagnóstico com nome e endereço no corpo. Se você se acidentou no trabalho e o atestado veio genérico, fale com o Hardy de Mello Advogados pelo WhatsApp (11) 99856-4520: orientamos os documentos antes que o prazo do INSS e o da empresa passem.
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Este conteúdo é informativo e não substitui a análise do caso concreto. As referências legais e os precedentes citados foram conferidos em fontes oficiais em setembro de 2026; a jurisprudência pode mudar. Autor: Hugo Vitor Hardy de Mello, advogado (OAB/SP 306.032).